Presidiário critica em poema sistema prisional: ‘Deturpa o cidadão’

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Peça foi entregue a promotora que fazia vistoria no complexo da Papuda. Autor relata que cela da cadeia é ‘reduto da covardia’ e ‘inimiga da solidão’.

Prestes a terminar mais uma inspeção de rotina ao complexo penitenciário da Papuda, em Brasília, a promotora Cleonice Varalda recebeu um poema de um detento denunciando as condições carcerárias em que vive. O homem foi condenado em 2008 por crime sexual e atentado ao pudor. Nas rimas entregues na quinta-feira (19), Joilson dos Santos relata que a cela da cadeia é “reduto da covardia” e “inimiga da solidão”.

Responsável por fiscalizar a situação dos presídios do DF, a promotora disse ter ficado surpresa com a iniciativa criativa do detento. “[Os presos] escrevem de vez em quando, e sou acostumada a receber cartinhas. Em 90% das vezes, é requerendo algo sobre o processo deles ou sobre as unidades. Já o pedido como forma de poema foi inusitado”, afirmou.

Segundo Cleonice, o condenado não inventou nada sobre as condições da prisão quando diz que é preciso “instigar a sonhar, insistir em educação”. “Eles ficam oprimidos lá, a maior parte do dia ociosos. Escrever é um meio de extravasar e que tem de ser incentivado”, continuou a promotora, que disse ao G1 levar em consideração as reclamações que recebe.

“[O poema] É uma denúncia, um grito, pedindo escola, educação. Temos que lembrar que são pessoas que cometeram crimes, que têm que pagar pelo que fizeram, mas que por trás de cada preso há uma vida.”

As unidades prisionais do DF são inspecionadas mensalmente pelo Ministério Público. Segundo o órgão, a unidade em que o “detento poeta” cumpre pena (a Penitenciária do Distrito Federal 2, próximo a Santa Maria) abriga 3,2 mil presos enquanto deveria manter somente 1.464 pessoas.

O autor do poema, que completou o ensino fundamental no presídio, está lotado em uma ala onde ficam os internos com bom comportamento e que desejam estudar. Procurada, a Subsecretaria do Sistema Penitenciário não se posicionou até a publicação desta reportagem.

Educar é preciso

Reduto da covardia
Inimiga da Solidão
Ela nunca está sozinha
É a cela da prisão
Que não recupera ninguém
Deturpa o cidadão

Mentes ociosas, vazias a pensar
Muitas maquinando o mal
Poucas delas a sonhar

Aumentar penas, construir presídios
Não é a solução
Temos que instigar a sonhar,
Investir em educação,
Ressocializar, ensinar uma profissão

Pois o homem que não sonha
É um ser sem compaixão
Sonho é o que vem à mente,
Desejo do coração

Sonhar alto é preciso,
Viver, estudar, realizar,
Tudo é possível
Ao estudante que sonhar

Fonte: Portal G1
http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2015/11/preso-por-estupro-critica-em-poema-sistema-prisional-deturpa-o-cidadao.html